Enfim, sem controle!

Por Julie Anne Caldas

São Paulo, Brasil, 09 de fevereiro de 2020.

“Será que não era melhor ter vindo de máscara?”, minha esposa questionou mais uma vez quando andávamos pelo aeroporto carregando as quatro únicas malas com tudo o que tínhamos escolhido levar para a nova vida na Europa. Eu ri, como em todas as vezes que ela fez essa pergunta nas semanas antes. Parecia muito exagero que um “viruzinho” surgido na China pudesse nos afetar. Desembarcamos no aeroporto de Lisboa, de mudança mesmo, de casa e de vida, meses depois de o João, meu filho do primeiro casamento que morou com a gente até os 11 anos, ter ido viver com o pai na Espanha, com todo o meu apoio e uma boa dose de “daqui a pouco eu vou também”.

O nosso esquema na chegada era sem lenço e só com alguns documentos – basicamente aqueles que nos permitem viver aqui por uma cidadania alemã. Planos de longo prazo? Não tínhamos. Mas os dois meses seguintes estavam super definidos: 20 dias conhecendo Portugal de carro, depois ida para a Espanha, cinco dias visitando o João em Madri, um mês trabalhando em uma pousada nas montanhas como voluntariado pela Worldpackers e depois uma viagem de navio, nós três juntos, realizando o sonho de fazer um cruzeiro. Tudo acabaria em Barcelona, onde visitaríamos um primo, ficando uma semana na cidade espanhola mais agitada. “Depois, de lá a gente vê o que faz, mas tem tempo ainda…”

Tempo… ele é que sabe das coisas. Tanto sabe que me mostrou que eu… eu não sei de nada. Hoje, mais de três meses depois de chegar na Europa achando que sabia o que estava fazendo, como seria essa mudança, o que me traria de positivo e de negativo, que vida nova era essa que estava buscando, só o que sei é estou na mesma vibe em que estava minha “ídola” da música Sandy quando cantou:

“Quanta bobagem 
tudo o que se falou 
me olho no espelho 
e já nem sei mais quem sou”.

“Esse estranho jeito de amar”, online, pela tela, com o máximo de distância possível para evitar contaminação, infelizmente é algo ao qual já estava me acostumando antes mesmo de sair do Brasil, nos meses em que usei a tecnologia para matar as saudades do meu filho, ajudar na lição de casa e até cantar parabéns a distância. Mas não, não é o meu jeito de amar. Pelo menos acho que não, considerando que “já nem sei mais quem sou”…

Sei quem fui até aqui; adianta? Fui uma mulher controladora, achando que podia salvar o mundo, que os problemas seriam muito mais rapidamente resolvidos se eu entrasse em cena, que eu era muito mais importante do que as pessoas reconheciam, “ahhh, mas um dia vão admitir”. Uma leonina afobada, dramática, prática, sincerona, corajosa, executora, comunicadora e mais um monte de adjetivos “fortes” que todos os testes de personalidade que fiz me deram, mas que, na urgência de ser alguém admirada e amada, acabei esquecendo de perguntar se uma pessoa especial concordava com eles: eu mesma! Ainda assim, jamais pensei em questionar nada disso – vai que me enfraquece?

Até o dia 1º de março quando, depois de viajar durante 20 dias por Portugal fazendo mais piadas com o Covid-19 (algumas feias, tipo “tem chineses ali, prende a respiração!” – são confissões, não são?), ficamos uns dias na nova casa do João (entenda-se casa do meu ex-marido, com a família nova dele + a minha, #tudojuntoemisturado). Ali tive o primeiro indício de que aquilo tudo não era só um “negócio da China”: a Itália havia fechado as portas para os turistas. O que me deixou pensando como o navio do cruzeiro que tínhamos marcado para 05 de abril faria para aportar em Gênova. “Ah, até lá vai estar tudo resolvido…”, pensei. Nem deu tempo de pensar mais. O tempo, ele de novo…

Menos de dez dias depois disso, eu e a Marry já estávamos confinadas na pousada no meio das montanhas espanholas, sem nenhuma possibilidade de sair, fazendo uma ligação para cancelar a viagem de cruzeiro. “Não precisa cancelar, senhora, ele já foi cancelado.” Paciência, bora focar no lado bom de estarmos isoladas aqui. É uma boa oportunidade para explorarmos as trilhas, caminharmos por olivais, contemplarmos a natureza, curtirmos a paz do silêncio, agradecermos por termos ficado “presas” em um lugar lindo, amplo, com estrutura e um proprietário amoroso e acolhedor. Tudo perfeito, mas tudo “nós”, na primeira pessoa do plural, perceberam? Porque, por mais contraditório que pareça, foi esse o pronome que EU aprendi a conjugar quando finalmente pude escolher viver uma vida menos focada em agradar os outros e mais com a minha cara – no caso, lésbica, descoberta e assumida só depois dos 30 anos.

Eu e ela enfrentamos muito para estar juntas: nossos pais, famílias, a perda de “amigos”, a educação na igreja evangélica, o medo de ir para o inferno. Enfrentamos tanto que enfrentar virou quase sinônimo de se amar. Porque nos amamos (no passado e no presente), aprendemos muito uma com a outra nesses quase oito anos juntas até aqui, e conquistamos, nesses cinco anos de casadas, mais do que eu mesma achava que “merecia” no começo. Não sei se você entende isso, mas quando a gente tem medo de estar “pecando contra Deus”, acha que só de poder continuar viva e sendo minimamente feliz já basta, quanto mais conquistar tanta coisa quanto conseguimos… Mas o fato é que, no meio desse enfrentamento todo que precisei viver para ser quem sou – no caso, lésbica AND cristã –, acabei olhando muito mais para o nós que para o eu.

E aí veio a quarentena. E como um remédio manipulado segundo receita específica, ela chegou tratando exatamente o que cada um precisava. No meu caso foi o tal “nós” x “eu”. Casamentos têm desafios, “é simplesmente complicado”, como disse uma amiga que também fez aqui suas confissões de confinadas. E eu adiciono: casamento e qualquer outra relação que envolve mais de uma pessoa é algo que a gente simplesmente não controla, e, quando tenta, se decepciona. Porque cada pessoa só é capaz de controlar a si mesma, nunca algo ou alguém – e, em muitas das vezes, nem isso. BOOM! Está aí o meu maior aprendizado deste aislamento que aqui na Espanha, em meados de maio, já dá indícios de que caminha para o fim: abrir mão do controle. Porque, tirando aquele do videogame, nenhum outro é realmente garantido.

A prova é que aqui estamos, eu e você, mulheres cheias de sonhos e planos, confinadas em nossas casas – ou, no meu caso, uma pousada que atualmente chamo de “minha casa”  –, sendo obrigadas a conviver 100% do tempo conosco mesmas e, no máximo, com aquelas pessoas que escolhemos chamar de família. Sendo testadas, desafiadas a olhar para o nosso eu mais puro e admitir verdades, encarar sombras, perceber dúvidas e fazer uma escolha: lutar pelo que acreditamos ou simplesmente desistir e se entregar.

Eu, pela primeira vez na minha vida de 38 anos, dois casamentos, um filho e uma religião que já se transformou em muitas crenças, resolvi entregar. Entregar meu presente, este confinamento, meu coração, as incertezas, meu casamento, os sonhos, meu filho, as possibilidades de futuro. Eu abri mão. De saber, de ter as respostas prontas, de querer entender. Até cortei a franja, num dia de impulso, e dias depois percebi que era só mais um jeito do Uni me ajudar a sair mesmo do comando – afinal, digam, mulheres que já experimentaram esse corte, o que é mais alheio e fora do nosso controle do que uma franja, que a cada dia acorda como bem quer?

Hoje, bem neste momento em que “maio já está no final, o o que somos nós afinal?”, quando olho para aquela Julie que chegou na Europa cheia de sonhos e certezas três meses atrás, só o que sinto é vontade de dar um conselho: CONFIA! Porque o futuro é incerto, e isso pode ser ótimo ou péssimo, só depende do seu ponto de vista! A Julie de hoje tem se dado muitos outros conselhos, ouvindo alguns, ignorando outros. Mas, no geral, essa mulher me surpreendeu:

ela mergulhou de cabeça, corpo e alma nesse processo de autoconhecimento no isolamento; 
ela já desistiu de um curso que ia vender sobre autenticidade por entender que nem era tão autêntica assim; 
ela saiu do Instagram para voltar à sua paixão original de escrever no blog;
ela já amou estar isolada e ter tempo suficiente e já surtou por estar isolada ter tempo demais; 
ela já agradeceu por estar casada com uma mulher incrível e questionou se queria isso mesmo; 
ela já morreu de saudade do filho que não pôde mais ver (nem no Dia das Mães!), mas também comemorou não ter cuidar de ninguém; 
ela já se sentiu tanto absolutamente sozinha quanto totalmente completa; 
ela agradeceu a Deus por ter dado Jesus e seus ensinamentos e à Índia por ter dado o yoga e seus sutras; 
ela já deitou na cama e chorou sem querer ver ninguém e depois se levantou e quis ouvir outras mulheres e dar voz às suas confissões de confinadas, talvez pra não se sentir sozinha aqui, ao confessar;
essa Julie não tem a menor noção do que vai acontecer quando o lockdown acabar e o novo normal chegar. 

Ainda bem.
Porque é quando o controle acaba que o amor surge. E, entre tantas coisas que deixei de acreditar e outras que nem sei, eu realmente creio que só o amor, especialmente o próprio, pode salvar a gente de algo que é ainda pior que uma pandemia mundial: cada pessoa deste mundo não ser quem verdadeiramente nasceu pra ser.


“Dias iguais, azuis, vermelhos, frios, dias sem paz, de espera…”, mas com o sol nascendo a cada manhã, trazendo a esperança e o amor mais puro!

3 comentários sobre “Enfim, sem controle!

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