Entre surtos, luto e aeroportos

Por Dea Salgueirinho

Landvetter, Suécia, 18 de março de 2020.

Entrei no aeroporto sem máscara, sem luvas. Mas tinha álcool em gel no bolso e usava o tempo todo. Fiquei chocada com o aeroporto vazio. Um avião acabara de decolar; outro, com destino à Inglaterra, estava me aguardando. Eu e mais umas 12, no máximo 15 pessoas na área de embarque. Um deserto, totalmente inusitado para quem nos últimos dois anos se tornou uma viajante acostumada com um “excuse me” atrás do outro para passar entre embarques e desembarques lotados mundo afora. Ah, viajar! Uma das minhas maiores paixões, sempre me empolga. Mas ali, naquele dia, me sentia diferente, confusa. Não sabia ao certo o que estava fazendo, para onde estava indo. Era um misto de “vai dar tudo certo” com “ai, meu Deus, e se eu não entrar na Inglaterra e não conseguir voltar pra Suécia?”.

Voltemos um pouco no tempo, para o dia 11 de março, quando eu estava em outro aeroporto; Guarulhos, Brasil. “Andrea, a República Tcheca está fechada. Melhor você vir para a minha casa e esperar isso tudo passar”, disse ao telefone minha prima que mora na Suécia, enquanto eu estava prestes a embarcar para Frankfurt, Alemanha. Partia para uma viagem de 40 dias com o intuito de completar minha meta de conhecer 25 países (embora eu já tivesse desistido de contar e decidido voltar para os lugares mais legais). Da Alemanha, iria para o leste europeu, e depois, Turquia – o tão sonhado destino que já estava programado desde 2019. Essa viagem para a Turquia fora o que me motivara a sair do Brasil para “espairecer a cabeça” se é que isso pudesse ser possível naquele momento… 

Depois de dois anos morando na Inglaterra, eu havia chegado no Brasil dia 05 de janeiro, após 12 horas de vôo e uma crise de ansiedade que fez comissários de bordo ficarem apreensivos e chamarem os médicos que estavam no avião – passageiros como eu. Dra. Débora foi quem me atendeu, verificou os sinais vitais e me garantiu que eu não estava infartando, mas alertou que mesmo com a medicação minha pressão estava 20 por 18 – o que me garantiu viajar na primeira classe com toda a assistência da companhia aérea. Estaria ótimo se não fosse o cilindro de oxigênio que colocaram em mim mesmo contra a vontade da médica. Cheguei na cidade mineira de Juiz de Fora a tempo de encontrar meu filho no hospital, aquele menino de 25 anos, cheio de vida e de sonhos que tinha sido diagnosticado com leucemia aguda na semana anterior. Passei o dia com ele, aguardando o resultado da biopsia, que não chegaria a tempo. Parece que ele estava só esperando ver a mãe para se despedir… Então na madrugada seguinte ele partiu, levando junto um pedaço de mim, que ficará faltando até o dia da minha partida – como diria Djavan “e o coração de quem ama, fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando…”.

E foi assim que janeiro tornou-se aquele mês com 300 dias, lembra? Não acabava nunca. Aí fevereiro veio pra ensinar janeiro como se faz e durou dez dias apenas – passou voando. Ainda tínhamos o direito de ir e vir, e no carnaval eu fui visitar a minha avó em tratamento. Foi ótimo. Um tempo em família, matando a saudades do convívio com o filho caçula, que até então não tinha tido minha atenção porque nem eu mesma sabia em que órbita estava.

E então chegou março, quando seria a viagem pra Turquia. “Vou ou não vou?”, pensei, e conversava com algumas pessoas como se quisesse alguma validação. Elas diziam “Sim, claro! Vai sim”. Eu me sentia incentivada e então decidi: “Vou! E, já que vou, vou antes, passo uns dias aqui, visito ali, depois vou à Inglaterra ver uns amigos e no final fecho com uma semana em Portugal – é isso!” Parecia um plano infalível. E era – mas aquele plano infalível do Cebolinha, se é que você me entende. Quando cheguei na Europa, a Itália já estava fechada. Logo os outros países começaram a fechar como um efeito dominó atrás de mim. De Frankfurt fui para Landvetter na Suécia, e de lá, para Londres, o tal vôo pós aeroporto deserto.
– Boa tarde senhora, quantos dias você pretende ficar na Inglaterra? – perguntou o agente da imigração no aeroporto.  – Duas semanas – disse, inventando na hora essa resposta. – Turismo?  – Sim. Talvez. Tenho uma viagem pra Turquia mas não tenho certeza se vou conseguir viajar pra lá.  – Senhora, as coisas estão preocupantes por aqui… Seja bem-vinda – carimbou meu passaporte. 

Eu me sentei na área de desembarque e fiquei sem reação. Peguei o celular e comecei a procurar um hostel para aquela noite. Parecia loucura. Mandei mensagem pra uma amiga que mora na cidade, que me disse: “Se eu não tivesse tido contato com uma pessoa com suspeita de Covid você poderia ficar na minha casa…”. Agradeci. Ela mandou outra mensagem logo em seguida, perguntando se eu me importava de ir mesmo com essa possibilidade. “No hostel com certeza seria pior”, respondi. E então passei dias maravilhosos na sua casa, num ambiente aconchegante, sem nenhum sinal do vírus e sendo ouvida por ela – às vezes até as 4h da manhã, com uma escuta afetuosa que foi um presente no auge do meu luto.

Alguns dias depois, com a viagem para a Turquia já definitivamente cancelada, fui para a casa de uns amigos no sudeste da Inglaterra. Uma casa enorme, com um quintal gigantesco que seria meu refúgio pelos próximos dias – assim eu acreditava, mas lá se foram dois longos meses. No início, tudo estava ótimo. Maratonas de séries na Netflix – coisa que não fazia há séculos –, música, meus escritos, eu praticamente sozinha na casa a maior parte do tempo. As pessoas aqui estão usando o lockdown para dormir de dia e fazer todo o resto à noite, enquanto eu, no caso, durmo, rs.

Então na sexta feira, dia 03 de abril, depois de duas semanas sem assistir ao noticiário, decidi ligar a TV e tive “meu primeiro micro surto da pandemia” (imagine uma vinheta bem tenebrosa acompanhando essas palavras). A quantidade de mortes tinha saltado de 300 para 12 mil na Inglaterra. Entrei em choque. Me dei conta de que estava presa no país sem poder sair. Minha passagem de volta ao Brasil seria em 3 semanas; ou talvez não, mas quando tentava descobrir a companhia aérea me pedia pra acessar as informações somente cinco dias antes da viagem. Fiquei em pânico. Liguei pra minha terapeuta – precisava voltar para as minhas sessões. 

Antes da primeira sessão, o sol havia dado as caras. Logo ele, tão ausente na terra da Rainha. Era um sinal de recomeço. Com o sol lá fora, passarinhos cantando, fui voltando à minha normalidade. Mas era uma normalidade de isolamento, não a real.  Eu procurava manter alguma sanidade, mas os fantasmas vinham me visitar semanalmente. Estava indo bem na minha elaboração do luto: chorava compulsivamente desde a hora que acordava até a hora de ir dormir. Não conseguia escrever muito, comecei a me irritar com as redes sociais. Parecia que todos os meus amigos se arrumavam pra assistir alguma live de sofrência no Brasil. Em protesto, compareci de pijama na tal primeira sessão de terapia online, quase descabelada. Eu já me sentia relativamente melhor, mas queria fazer “just in case“. E fiz, de pijama. E descobri que o relativamente melhor era relativo, e dependia do dia…

Precisava fazer algo além de maratonar séries e, voilà, voltei a cozinhar! Eu sempre amei cozinhar, mas agora seria diferente. Seria com gosto. Cortar todos os ingredientes bem pequenos, bem coloridos, com muito tempero – isso! Faria disso uma terapia entre os pequenos surtos semanais. Comecei a marcar vídeo chamadas com amigos, e aí me arrumava, fazia petiscos, tomava um vinho. Os dias eram esquisitos. Assim, meio sem lógica, como saem as frases aqui mesmo.

Abril foi um mês muito dolorido de viver. Tive vários motivos pra chorar em abril. E chorava. Chorava vendo filme, ligando pra alguém, escrevendo, vendo notícias. Sentia saudades do meu filho, da minha liberdade e me desesperava por não poder voltar à minha vida “normal”. Que já não seria “normal”, mas a minha nova vida sem meu filho – anyway, só queria uma vida que eu tivesse o direito de continuar tocando sabe? Fazendo planos, para esquecer as dores. Aguardava a resposta sobre a minha volta pela companhia aréa, mas eu já não sabia se queria voltar para o Brasil. A verdade é que eu nem sabia mais viver no Brasil depois de dois anos morando fora… Mas eu queria. Então minha passagem foi finalmente cancelada. Não havia o que fazer. A não ser lamentar o fato de o meu seguro-viagem não cobrir casos de pandemia – além de tudo eu estava “descoberta”. Naquele momento eu já estava conformada com o fato de fazer parte do grupo de risco – até então eu estava ‘plena’ achando que caso eu fosse contaminada com o vírus seria ‘suave’, até minha amiga que é enfermeira me falar “você toma remédio pra pressão, não toma? Então amiga, você é sim do grupo de risco”. Parecia um mergulho numa outra realidade. Me isolei um pouco mais. Não queria ver ninguém. Como se eu tivesse outra escolha… 

O mês de maio já começou com a companhia aérea me mandando uma mensagem: voltaremos a voar em junho. “Ótimo, mais um mês surtada”, pensei. Mas até que eu estava bem. Eram surtos comportados, compostos por um misto de desespero, incerteza e a frase “pára, sua loka”, plus a sensação de autoacolhimento, “vai ficar tudo bem”. Em meados de maio quando, depois de tanto nos confessarmos, embarcamos nessa de ler histórias e elaborar contos. Loucuras que confinadas fazem. Comentei com a minha terapeuta. Ela ficou feliz, tanto com o novo projeto, quanto com uma sessão de terapia não afogada em lágrimas – significava que eu estava elaborando melhor meus processos internos? Não dava pra saber… Até porque meu corpo começava a dar alguns sinais: pequenas brotoejas avermelhadas – um sinal nítido de alergia – que aparecem sempre que estou num estágio avançado de stress. O corpo fala e eu queria estar atenta à mensagem. 

Em junho tenho planos de voltar para o Brasil, e fico confusa só de pensar que estamos quase no meio do ano e continuo sem resposta quando me perguntam: “E aí? Vai ficar no Brasil ou vai voltar para Inglaterra?” – sendo que daqui eu ainda nem saí! O que posso é afirmar que, mesmo sem essa resposta, este isolamento trouxe algumas certezas que me inundam e, portanto, transbordam: 

é impossível viver sem contato humano, sem abraços; 
é necessário dar vazão aos sentimentos;
ficar sozinha pode ser restaurador;
viver um luto em tempos de isolamento social é enlouquecedor (ainda mais quando não paramos de ouvir notícias de morte, algumas de conhecidos);
ser vulnerável é permitido e libertador;
chorar lava a alma;
nem sempre os amigos sabem lidar com sua perda – ficam sem jeito de perguntar, depois ficam se perguntando se deveriam ter perguntado;
tem sempre alguém por perto passando uma dor igual ou pior que a sua;
o sol ajuda você a não se deprimir;
a música tem o poder de aumentar sua vibração;
o contato com a natureza e os sons de pássaros acalma;
Deus é amor;
em qualquer circunstância, seja grata.

Fique bem, se puder fique em casa e descubra seu próprio processo.


Aeroporto de Landvetter, Suécia, praticamente vazio em 18 de março de 2020.

3 comentários sobre “Entre surtos, luto e aeroportos

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