Uma história que não teve final feliz…

Lucimar é aquela pessoa que adora a rua, adora bater perna. No início de 2020, a vida seguia normalmente, ela ia a bares, restaurantes, cinema, shopping e é claro, como uma típica moradora do litoral, curtia a praia com frequência. Além da sua rotina com o trabalho; ela é pedagoga e atua em uma instituição de ensino para crianças com necessidades especiais. 

Suas únicas preocupações eram com questões de saúde. Muito antenada aos noticiários, ela estava acompanhando a evolução dos casos no mundo – principalmente China e Europa onde os números cresciam desordenadamente –, mas custava a acreditar que chegasse ao Brasil. Até então, andava nas ruas sem medo, sem pânico. Mas isso durou pouco, principalmente porque Lucimar fazia parte do grupo de risco, e no dia 17 de março a escola em que trabalha tomou sua primeira providência em relação ao distanciamento social: afastar todas as pessoas com 60 anos ou mais.

Obediente (além de consciente), ela decidiu cumprir rigorosamente o período de lockdown, e não sentiu tanto impacto na primeira semana; mas gradualmente o comércio de sua cidade começou a fechar as portas, e então ela se deu conta que a disseminação do vírus era de fato assustadora. A alternativa para não pensar demais foi se ocupar. Além da limpeza da casa, decidiu se dedicar a hobbies como pintura, costura e leitura. Seu apartamento é espaçoso, confortável, mas ela confessa que sentiu falta de uma varanda para tomar sol e espairecer. “Quando eu trocar de casa, minha primeira exigência será uma varanda. Tenho visto pessoas felizes nas suas, realmente faz diferença em tempos de confinamento.” Esperamos que ela não esteja se preparando para uma próxima situação assim…

O sentimento mais latente de todos na casa era o medo do invisível. “Minha filha está apavorada!” Assistir ao noticiário e perceber um número crescente de óbitos, trazia muita angústia e um único pensamento: “quando tudo isso vai acabar?”. Não antes de sua data preferida… Ela, que sempre gostou de comemorar seu aniversário com a presença de amigos próximos e familiares, no dia 06 de abril teve que se contentar em receber ligações, mensagens e chamadas de vídeo, que por um lado a deixaram feliz, mas por outro frustrada pela falta do contato e de toda a descontração que só as festinhas de aniversário têm. 

Antes fosse só essa sua frustração… No dia 04 de maio, seu marido apresentou suspeita de contágio pelo Covid-19, e precisou ser internado. Eles se conheceram já na maturidade, e há poucos anos se casaram, formando família com a filha dela, Stephanie, e os gatos dele, Manoel e Mia. Com a internação, Lucimar começou a temer pelo que ainda estava por vir. “Eu fiquei sem chão.” Saber que por um período ficaria longe do marido, sem nenhum contato visual deixava Lucimar cada dia mais fragilizada, e essa percepção deu espaço para que ela sentisse cada vez mais empatia pelas pessoas que nunca conheceu, mas que de alguma forma estavam sofrendo como ela ou o marido na situação de pandemia. 

Passou esses dias ainda mais apreensiva, refletindo sobre tudo o que aconteceu, sobre as comemorações que foi impedida de fazer, como o tradicional almoço do Dia da Mães e o domingo de Páscoa, e percebeu que o melhor que tinha a fazer era mesmo cumprir à risca o distanciamento. Até as coisas mais simples como ir fazer as unhas na manicure, Lucimar abriu mão – colocando toda sua habilidade pra fora e cuidando das suas próprias unhas, até para se distrair. 

É evidente que os pensamentos recheados de preocupações com o futuro não a deixaram em paz por completo. “Como ficará a situação do País? E o desemprego em massa? Teremos casos de suicídio?” Além de achar terrível a realidade do confinamento, chegou à conclusão de que não conseguiria viver assim pelo resto da vida. “É um cenário caótico.” Que ela não imaginava que ainda ia piorar…

Se é no caos que se faz o novo, como dizem, ela aproveitou o momento para repensar a vida e desenvolver algumas habilidades. “Aprendi a ter mais paciência e a ser mais regrada. Já vejo mudança e me percebo como uma pessoa melhor, mais generosa e com a intenção de se doar mais aos outros.” Só não sabia o QUANTO ia realmente precisar dessas e outras virtudes…

Infelizmente, 25 dias depois de ver seu marido ser internado e apenas uma semana após ter respondido nossa entrevista, ele testou positivo para o coronavírus e ontem, 28/05, veio a falecer, vítima dessa terrível doença que está assustando e assolando o mundo. Nós, Dea e Julie, enviamos aqui nossas condolências à família, desejando que Lucimar, sua filha, os filhos de quatro patas e todos os parentes desse homem, que foi tão bom para ela, sejam confortados neste momento de dor. E que Lucimar tenha força e se lembre sempre de que é capaz de desenvolver todas as virtudes que precisar para superar essa perda.


Quando Lucimar nos contou sua história, estava apreensiva com os sintomas do marido, mas nem imaginava que o perderia dias depois…

7 comentários sobre “Uma história que não teve final feliz…

  1. Sim, escrever e uma boa alternativa à solidão , ou ao menos ao sentimento de, mas as vividas lembranças dos bons momentos passados juntos trará ao coração de Lucimar leveza na dor. A fé e o amor dos amigos ajudarão no conforto ao espírito. O amor sempre sobrepujará o distanciamento vivido com a morte , que a meu ver é temporário . Grande abraço

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: “Cheguei, hein! Estou no paraíso, que abundância…” – VIDA DE ÍNDIGO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s